quarta-feira, 15 de agosto de 2012


Indústria nacional patina na corrida do pré-sal

Agência Petrobras / Construção de plataforma no Rio Grande do Sul: fornecedores não conseguem acompanhar demanda da Petrobras
A descoberta de petróleo na camada pré-sal da costa brasileira completa cinco anos em novembro, mas o país continua distante de consolidar uma cadeia de fornecedores capaz de acompanhar a crescente demanda das empresas do setor, em especial a Petrobras. E tampouco há mão de obra capacitada em quantidade suficiente para dar conta do desafio.Por isso, os dois programas anunciados ontem pelo governo federal são bem-vindos e ajudam a preencher importantes lacunas, em especial no financiamento à inovação. Mesmo assim, a indústria brasileira de equipamentos para petróleo e gás terá de superar outros obstáculos para conseguir competir de igual para igual com as empresas estrangeiras do setor. A avaliação é de especialistas que participaram ontem, em Curitiba, da mesa-redonda “Pré-sal e desenvolvimento industrial”, parte do 8.º Congresso Brasileiro de Planejamento Energético.O economista André Furtado, professor do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp, lembrou que, assim como a Petrobras não cumpre suas metas anuais de produção desde meados da década passada, suas fornecedoras locais também têm se mostrado incapazes de acompanhar o ritmo de investimentos da estatal. Recentemente, a Petrobras reduziu suas projeções, mas elas continuam gigantescas: pretende investir US$ 208,7 bilhões de 2012 a 2016 (quase US$ 42 bilhões por ano), sem contar US$ 27,8 bilhões em projetos ainda em avaliação.“A política de conteúdo nacional da Petrobras tem resultados tímidos, não dá conta de capacitar seus fornecedores a dar um salto tecnológico. A tecnologia e os equipamentos mais complexos são em geral importados, ficando as empresas brasileiras com funções mais básicas”, disse Furtado. Para ele, as políticas públicas de estímulo à cadeia de fornecedores seguem a direção correta, mas o setor ainda esbarra em dificuldades. “De um lado, há empresas pequenas, com deficiências e pouco pessoal qualificado. De outro, o país nunca conseguiu estruturar grandes grupos nacionais no setor. E há também as questões costumeiras da indústria nacional, como os custos elevados, que derrubam sua competitividade.”Segundo Helder Queiroz, diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a indústria de petróleo do Brasil atravessa um “momento histórico”, com dois ciclos simultâneos de investimentos bilionários – um na área de exploração e produção e outro na área de refino. “Não há dúvida de que, se a exploração do pré-sal for tocada de forma muito rápida, vai esbarrar em gargalos muito grandes, impedindo o espraiamento de efeitos positivos pela indústria nacional. Ela ainda precisa de capacidade e capacitação para acompanhar esses ciclos.”
Pessoal
Ao apresentar um quadro com a demanda de profissionais até 2020, Heitor Gioppo, diretor da Odebrecht Óleo e Gás e da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Petróleo (Abespetro), disse que, perto do desafio de capacitar mão de obra, desenvolver tecnologia nacional será relativamente simples. “O nosso grande gargalo é pessoal. Até o fim da década o setor vai precisar de pelo menos 213 mil profissionais qualificados, de 189 categorias. Só de engenheiros são quase 9 mil. Onde vamos achar esse povo todo?”, questionou.
Programa do BNDES terá R$ 3 bilhões para projetos na área
FJ, com agências
O Banco Nacional de Desen­volvimento Econômico e Social (BNDES) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) lançaram ontem o programa Inova Petro, que vai financiar novas tecnologias e apoiar empresas fornecedoras do pré-sal. O programa vai até 2016 e terá R$ 3 bilhões para o fomento de projetos, que serão selecionados com ajuda da Petrobras. O primeiro edital será lançado em 17 de setembro.O governo também anun­­­­­­­­ciou uma ação conjunta entre Ministério do Desenvolvimento, Agên­cia Brasileira para o Desen­vol­vimento da Indústria (ABDI) e Petrobras para o desenvolvimento de arranjos produtivos locais (APLs) e a atração de fornecedores para o entorno de empreendimentos da estatal. Neste ano, o programa vai escolher nove empresas de Belo Horizonte, Salvador e Recife para o desenvolvimento de um plano de negócios. Não foi divulgado se alguma cidade paranaense será contemplada no futuro.A presidente da Petrobras, Graça Foster, reconheceu que um dos desafios do plano de investimentos da estatal é o desenvolvimento de uma cadeia de fornecedores locais. Ela disse que, desde 2003, quando a empresa implementou um programa de exigência de conteúdo local mínimo em suas encomendas, já houve avanço, mas que é possível fazer mais.“Muito pouco do trabalho no pré-sal é realizado pela Petrobras e por nossas empresas sócias. Há milhares de quilômetros a percorrer ainda para que a indústria de bens e serviços atenda às nossas demandas e às demandas das empresas que trabalham com a Petrobras”, disse a executiva.Segundo ela, o índice de conteúdo local nas contratações da companhia subiu de 40% a 55% em 2003 para 65% atualmente na área de exploração e produção. No refino, o porcentual subiu de 82% para 92% e, na de gás e energia, de 70% para 90%. Para alguns analistas, no entanto, esses números são superestimados.
Gigante nacional
Um dos objetivos do programa é criar uma grande empresa nacional de fornecimento de bens e serviços no setor de petróleo. O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, afirmou que o banco poderá, quando necessário, injetar capital em companhias do setor por meio de compra de participação acionária, a fim de fortalecer as firmas com projetos importantes de desenvolvimento tecnológico na cadeia de petróleo.
FONTE GAZETA DO POVO

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